MR MOJO

Nos primórdios, muitos Bluesmans oriundos de New Orleans eram adeptos do Voodoo, uma espécie de seita afro-americana muito difundida no sul dos Estados Unidos da América. No Voodoo, são realizados rituais de magia negra. Acredita-se que certos amuletos utilizados pelos seguidores dessa seita teriam o poder de atrair mulheres e fama. Muitos Bluesmans carregavam consigo uma espécie de bolsa minuscula ou um pequenino saco feito de tecido, chamado mojo, ao qual é atribuído esse poder. O vocalista dos Doors, James Douglas Morison (Jim Morrison), que também teve envolvimento com seitas derivadas do Voodoo ou similares à ele, fez um anagrama com as letras que compoem seu nome extraindo delas um pseudônimo; ( Mr Mojo Rising). Mojo, também é uma expressão que se aplica à um determinado sujeito, que possui fama de mulherengo, conquistador, boêmio que realiza proezas sexuais .........Reza uma antiga lenda, que Mr Mojo é uma entidade (espírito) que se apossa do corpo dos bluesmans dando aos mesmos a inspiração para cantar tocar e compor.....

Nas férias de verão, em meados de janeiro de 2000, retornei a pacata cidadezinha interiorana onde nasci. Sempre achei que o interior do sul do Brasil com seus campos nativos, suas matas e riachos concentrava um certo romantismo saudosista e porque não dizer bucólico. Com uma mochila nas costas eu caminhava despreocupadamente pela estrada estreita e empoeirada daqueles confins. O silêncio dessas paragens por muitas vezes me fazia refletir sobre meus planos e ambições, o ambiente era perfeito para realizar um balanço de tudo que fiz ou deixei de fazer, e o que realmente me importava. Naquele silêncio melancólico, os pensamentos e lembranças fluíam junto às águas daqueles pequenos riachos e sangas que serpenteavam ao longo da estrada. O único som que por vezes quebrava o silêncio eram os diferentes cantos das mais variadas espécies de pássaros silvestres.


Apesar de ser verão, a temperatura se apresentava mais amena devido à sombra das frondosas árvores do parque florestal. Eu seguia em frente, na verdade sem destino, queria apenas caminhar até a exaustão, e depois descansar à sombra de uma daquelas enormes araucárias. Caminhava a passos lentos contemplando a paisagem, aquela imensidão de campos verdes, talvez representassem para mim a imensidão da minha esperança juvenil. Nesses lugares remotos, as agruras da natureza não são comparáveis ao desgaste psíquico que a rotina frenética das grandes cidades nos oferece. Meu corpo estava em movimento, mas minha consciência repousava e dava espaço aos sonhos mais utópicos que nela estavam armazenados.


A paz dos campos embalava a minha alma que se tornava inocente como um infante. Longe das preocupações, ali não havia espaço para os dissabores e desgostos da vida, o passado era esquecido, quase que apagado por completo. Minhas reflexões e o silêncio foi cortado com um som de uma harmônica que vinha de muito longe trazido pelo vento que agitava os pastos e a copa das árvores. Olhei ao redor e para o horizonte aberto daquelas planícies e não avistei nenhum resquício de vida, nenhuma casa, nenhum chalé, nada. O que se via era apenas um rebanho de bovinos e algumas ovelhas pastando ao longe. Continuei caminhando. Ao passo que avançava pela estrada o som parecia estar cada vez mais perto. A música com certeza não era regional, milonga, rancheira ou coisa parecida, era muito mais melancólica, às vezes efusiva, mas era bela.


Caminhei cerca de uns dois quilômetros quando avistei uma cena que se tornaria comum a partir desse acontecimento. Lá estava ele, debaixo da sombra de um pinheiro, sentado na relva tocando sua gaita de boca. Pensei:
“Não pode ser ! Outra vez não, alucinações novamente!”
Continuei andando e cheguei perto do sujeito. Agora tinha certeza, era Mr Mojo.
- Olá rapaz, que bom revê-lo!
- Bom dia. Respondi friamente.
- Belas paisagens por aqui não é?
- Certamente. Respondi.
- E você o que faz por aqui? Perguntei
- O mesmo que você meu jovem, buscando respostas.
- Quem disse que estou buscando respostas?
- Seus olhos. Respondeu o sujeito.
Mojo pegou sua gaita e a guardou no bolso da calça.
- Sente aqui rapaz, descanse um pouco, a sombra está maravilhosa.
- Não posso, tenho que voltar para casa, e nem mesmo lhe conheço, não costumo conversar com estranhos.
- Ora, ora, você me conhece sim, não lembra da noite da festa?
- Sim, mas de qualquer modo não sei quem você é, de onde vem, o que faz da vida.
- E é preciso saber tanta coisa sobre mim? Indagou o sujeito.
- Olha, sempre estou aberto a novas amizades, mas primeiro tenho que confiar nelas, e você não me deu nenhum motivo até agora para que isso aconteça.
- Bem, é verdade, mas de qualquer forma insisto, sente-se.
Permaneci de pé e perguntei:
- O que estava tocando?
- A sim, um velho Blues, nada mais.
- Blues! Adoro Blues!
- Eu sei. Respondeu ele.
- Ora, como pode saber se nem me conhece?
- Não precisa conviver com uma pessoa para conhecê-la, basta olhar dentro dos olhos dela e analisar sua alma.
- Então você é um vidente? Perguntei de forma irônica.
- Talvez, digamos que eu tenha um sexto sentido mais aguçado.
- Então o que quer de mim?
- Nada, quero apenas mostrar quem realmente você é.
- Eu sei muito bem quem eu sou, não preciso de uma psicanálise para descobrir.
- Existem muitas coisas que escondemos de nós mesmos, para que os outros não percebam, a maioria mente para si mesmo. Disse ele.
- Você sabe apenas que gosto de blues. Afirmei.
- E que toca blues também, e isso basta para mim. Respondeu Mojo.
Pensei: “Bom, não me faltava mais nada conversando com um fantasma”.
- Olha diga o que quer de mim e vamos encerrar essa conversa o mais breve possível.
- Como quiser. Respondeu.
- Você quer ser um verdadeiro Bluesman? Perguntou ele.
- Ora, quem não quer ser um astro do Blues! Mas acho que não tenho talento para tanto.
- Ser um astro do Blues não significa ser um verdadeiro Bluesman. Respondeu Mojo.
- É? E o que significa ser um bluesman? Ser como você? Ironizei novamente.
- Talvez? Mas o mais importante é viver como um bluesman?
- Olha estamos no Brasil, e não na região do delta do Mississipi.
- Quem lhe disse que um verdadeiro Bluesman precisa ser dessa região que você mencionou?
- A história prova.
- A história pode ser mudada, não o que passou, mas o que está por vir. Afirmou ele.
- Bom como vou me tornar um bluesman de verdade então?
- Meu filho o Blues é simples como os sentimentos e tão profundo quanto eles, se você souber canalizar seus sentimentos na música enquanto toca, vai aprender que é na simplicidade que residem as harmonias e melodias mais belas. O Blues é muito mais que uma música, é um estado de espírito. Dentro de apenas três acordes e uma escala teoricamente acessível como é a Penta-Blues você pode descobrir um universo de possibilidades. Continuou:
- Quando tocar, imprima nas cordas da sua guitarras seus sentimentos, procure fazer isso sem maiores pretensões, lembre-se sempre, simplicidade, paixão e sentimento, eis a fórmula para se tornar um verdadeiro Bluesman.
Uma carroça que vinha passando pela estrada desviou minha atenção, deixando uma imensa nuvem de poeira pairando no ar. Quando a poeira se dissipou, ele não estava mais lá. Corri gritando atrás da carroça puxada por bois, até que o carroceiro parou.
- Bom dia Senhor!
- Bom dia moço!
- Poderia me dar uma carona o mais próximo da cidade possível?
- Mas é claro suba! Só não se importe com o sacolejo!
- Nem um pouco. Respondi
E lá fomos nós estrada a fora rumo a cidade, olhei para traz e vi apenas poeira e mais poeira. Aos poucos ela foi baixando, quando ao longe surgiu Mr Mojo acenando com a gaita na mão.
- Até breve meu jovem, até breve!

1 comentários:

Anônimo disse...

cigarros, café, erva-mate, discos, livros e uma tarde inteira...

essa mistura parece inflamável.

boa estória.
o nosso pé de serra tem grandes árvores, e até grandes homens.

sorte e luz.

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