MR MOJO

Nos primórdios, muitos Bluesmans oriundos de New Orleans eram adeptos do Voodoo, uma espécie de seita afro-americana muito difundida no sul dos Estados Unidos da América. No Voodoo, são realizados rituais de magia negra. Acredita-se que certos amuletos utilizados pelos seguidores dessa seita teriam o poder de atrair mulheres e fama. Muitos Bluesmans carregavam consigo uma espécie de bolsa minuscula ou um pequenino saco feito de tecido, chamado mojo, ao qual é atribuído esse poder. O vocalista dos Doors, James Douglas Morison (Jim Morrison), que também teve envolvimento com seitas derivadas do Voodoo ou similares à ele, fez um anagrama com as letras que compoem seu nome extraindo delas um pseudônimo; ( Mr Mojo Rising). Mojo, também é uma expressão que se aplica à um determinado sujeito, que possui fama de mulherengo, conquistador, boêmio que realiza proezas sexuais .........Reza uma antiga lenda, que Mr Mojo é uma entidade (espírito) que se apossa do corpo dos bluesmans dando aos mesmos a inspiração para cantar tocar e compor.....

Desde muito cedo convivo com a impertinente presença de Mr Mojo Slim. Esta entidade, que muitas vezes se apossa de mim nas situações mais inusitadas e inesperadas já me causou inúmeros problemas. Na verdade não lembro exatamente quando isso começou, sei que foi após um presente que ganhei no natal de 1999. Sempre fui fascinado por musica. Parava em frente às vitrines das lojas que vendiam instrumentos musicais e ficava ali parado durante uns bons minutos contemplando os instrumentos. Na adolescência começou a despertar em mim o amor pelo Rock `n ´Roll, sentimento que aos poucos foi se camuflando mas ainda continua guardado num cantinho da minha alma.
Retornando aquela manhã de 25 de dezembro de 1999, fui surpreendido quando minha mãe entrou sala adentro com um violão nos braços, dizendo que ele era todinho meu. Quanta euforia! Era tudo o que eu sonhava naqueles tempos. O próximo passo seria arranjar um professor e começar a aprender, e foi o que aconteceu. Alguns dias depois procurei uma escola de música e me matriculei em um cursinho básico de violão e comecei a tomar as primeiras lições. O começo foi complicado, uma vez que eu não possuía nenhum músico na família. Após as aulas me trancava no quarto e ficava horas a fio retomando as lições, tinha pressa em aprender.
Após várias tentativas de abandonar o ofício, aprendi o básico, me tornei então um iniciante. Após dominar os truques e macetes, montar os acordes e digitar as escalas comecei a tentar executar a harmonia de alguns Rocks, ainda com muita dificuldade. O tempo passou, e após muita dedicação e perseverança já estava conseguindo executar a base de algumas canções já com uma certa facilidade. Estava na hora de aprender os arranjos, os solos a parte mais complicada para qualquer iniciante.
Meu professor sempre muito tranqüilo me passou a tablatura das primeiras escalas, as quais eu deveria decorar para começar a executar os solos.
- Muito bem. Disse ele.
- Vamos começar pela mais fácil, essa é a escala pentatônica a qual é muito utilizada no Rock, ela faz parte das escalas menores, é de origem um tanto quanto desconhecida, mas os historiadores afirmam que provavelmente ela tenha se originado no oriente. Outra escala que irei lhe mostrar é a escala típica de Blues, que nada mais é que a adição de algumas notas a mais na pentatônica, formando assim a penta-blues, essas notas adicionais chamam-se “Blues Not” em inglês ou nota de Blues, trata-se da inclusão da quinta diminuta na escala pentatônica.
- Blues? Que tipo de som é esse. Perguntei.
- Não me interesso por esse tal de Blues, quero aprender tocar Rock! Disse eu.
- Mas então garoto o Rock surgiu do Blues, e essas escalas são muito utilizadas no Rock, será melhor que aprenda primeiro o Blues para depois começar a compreender melhor as técnicas de harmonia e melodia utilizadas no Rock.
- Tudo bem, o professor é você.
- Então vamos lá, toque o acorde de mi maior, o primeiro toque deve ser ligeiramente mais longo que o segundo, ou seja, deve durar “dois terços” do tempo e o segundo “um terço”. Esse fenômeno é chamado de tercina, que nada mais é que o tempo dividido em três partes iguais. A tercina é a célula rítmica que rege o Blues essência maior do Rock. Depois toque da mesma forma em lá, volte para mi e finalize indo para si e em seguida volte pra mi, compreendeu?
- Acho que sim, vou tentar.
As primeiras tentativas foram frustradas, durante uma hora de aula fiquei fazendo o mesmo exercício, porém não obtive êxito. Voltei para casa desanimado e a ponto de desistir. Mas a vontade de tocar Rock `n `Roll era maior que o desânimo, e lá estava eu novamente trancado no quarto, e decidi não sair de lá até pelo menos conseguir acertar uma vez. Finalmente consegui completar o exercício, e nos dias que se seguiram pratiquei-o cada vez mais até realiza-lo sem esforço, mas de forma natural. Nas aulas posteriores labutei para conseguir acertar a digitação das duas escalas a serem aplicadas nos solos. Após alguns meses de um esforço, que para as minhas limitações chegava a ser sobre-humano, consegui memorizar e aplicar a digitação no instrumento de forma tranqüila e com uma certa habilidade.
O que me pareceu estranho durante esse tempo, é que a medida que praticava aqueles simples exercícios de base e solo do Blues, o ritmo e a melodia pareciam que sugavam minha alma para dentro do instrumento, cada frase transmitia um sentimento que variava da melancolia a euforia. Aquelas escalas e acordes, aquele ritmo começou a tomar conta dos meus sentidos e pouco a pouco se tornou uma espécie de vício. Sempre que pegava meu violão para estudar, as primeiras escalas e acordes eram aqueles, os mais simples, mas os que mais me davam prazer em executar.
Aos poucos a vontade de tocar Rock `n`Roll foi ficando cada vez mais esquecida e foi aos poucos sendo substituída pela vontade de tocar aquele som que eu nunca tinha ouvido falar, mas que era para mim um sopro de vida, e assim o Blues tornou-se parte de mim e do meu dia-a-dia. Aquele som simples, de três acordes na base, que compreendiam a tônica , a quarta e a quinta notas da escala junto ao compasso de três tempos me hipnotiza, levava a minha alma a um estado de plena satisfação. A partir desses acontecimentos foi que comecei a entrar em contato, sem querer com essa criatura estranha chamada Mr Mojo Slim, que eu não sei se é fruto da minha imaginação ou do meu fanatismo pelo Blues, ou é um espírito que me revela coisas realmente reais.
A primeira vez que confidenciei isso a um amigo, esse deu o diagnóstico imediatamente.
- Procura um psiquiatra, você não está bem, como pode ver e ouvir alguém que os outros não enxergam e nem escutam? Isso pode estar ocorrendo devido a essa sua fixação pela música, pelo Blues em particular.
Lembro bem da primeira vez que fui acometido por essas alucinações. Estávamos fazendo uma festa de confraternização com os amigos, regada a muita cerveja e música. Não sei se foi o efeito do álcool, creio que não, pois se fosse isso jamais teria se repetido em ocasiões em que eu me encontrava completamente sóbrio. O fato é que peguei o violão, apoiei o instrumento na perna direita, foi quando uma voz que parecia vir de muito longe me disse:
- Toca uma do Robert johnson!
- Tocar o que?
- Quem de vocês pediu para mim tocar uma canção de um tal de Robert johnson? Perguntei a todos.
Todo mundo respondeu em coro:
- Ninguém?
Fiquei assustado, mas me controlei para não entrar em pânico.
- Deixa pra lá, vamos fazer um Blues!
Na saída da festa, eu vinho caminhando só pela calçada, já era perto da meia noite, quando de longe percebi um vulto parada na esquina, o encontro da rua em que eu me encontrava com a rua transversal formava uma encruzilhada. Fiquei com receio de que fosse algum bêbado, drogado ou assaltante, mas continuei caminhando sem demonstrar medo, mas pronta para correr se fosse necessário. Chegando mais perto, e com o auxilio da luz de um poste que ficava do outro lado da rua percebi que a figura se tratava de um homem de pele negra, vestia uma calça social em ótimo estado, um sapato que mais parecia um espelho, terno, gravata, óculos escuros e um chapéu que lhe cobria a cabeça e quase toda a testa. Pensei: “ Bom, não deve ser alguém mal intencionado, deve estar esperando por alguém”. Continuei no meu caminho, passei por ele sem olhar para os lados. Foi então que ele me chamou:
- Olá rapaz, como vão às coisas?
Não senti mais minhas pernas, meu corpo inteiro ficou imóvel, tamanho era o pavor. Olhei para traz e gaguejando respondi:
- Es...es...tá...tá...tu..do ..bem.
- Vi você tocar aquele Blues, está no caminho certo, se estudar mais um tempo vai tornar-se um profissional de grande qualidade. Disse a figura misteriosa.
- Muito obrigado, mas agora tenho que ir andando já esta tarde, adeus.
- Até logo, em breve nos veremos novamente. Respondeu o sujeito.
- Como? Se eu nem lhe conheço, e tão pouco lhe vi na festa!?
- Mas eu conheço você. Falou o sujeito
- E você quem é? Perguntei espantado.
- Pode me chamar de Mr Mojo Slim, ou Mr Mojo para os íntimos.
Virei o rosto e continuei a caminhar rapidamente, confuso e com medo, mas curioso em saber quem era aquela enigmática figura. Num impulso de curiosidade voltei meu olhar para a esquina, mas o sujeito sumiu tão rápido que não pude ver nem mesmo o seu vulto, olhei em volta e nada. Assustado com os batimentos cardíacos acelerado, as pernas bambas e ofegante cheguei até em casa. O sono daquela noite foi pesado, perturbado por visões de negros cantando ao redor de uma fogueira ao som de uma gaita.
Logo ao amanhecer a primeira coisa que fiz logo após acordar foi telefonar para a casa do meu amigo, anfitrião da festa ocorrida durante a noite passada.
- Pedro havia um sujeito, sei lá, pode ser um amigo seu, um negro de calça social, terno, gravata, óculos escuros e chapéu na festa ontem?
- Claro que não! A festa era apenas para a galera da turma não lembra? Ninguém mais podia participar. Mas porque essa pergunta agora?
- Nada, deixa pra lá, até logo.

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