MR MOJO

Nos primórdios, muitos Bluesmans oriundos de New Orleans eram adeptos do Voodoo, uma espécie de seita afro-americana muito difundida no sul dos Estados Unidos da América. No Voodoo, são realizados rituais de magia negra. Acredita-se que certos amuletos utilizados pelos seguidores dessa seita teriam o poder de atrair mulheres e fama. Muitos Bluesmans carregavam consigo uma espécie de bolsa minuscula ou um pequenino saco feito de tecido, chamado mojo, ao qual é atribuído esse poder. O vocalista dos Doors, James Douglas Morison (Jim Morrison), que também teve envolvimento com seitas derivadas do Voodoo ou similares à ele, fez um anagrama com as letras que compoem seu nome extraindo delas um pseudônimo; ( Mr Mojo Rising). Mojo, também é uma expressão que se aplica à um determinado sujeito, que possui fama de mulherengo, conquistador, boêmio que realiza proezas sexuais .........Reza uma antiga lenda, que Mr Mojo é uma entidade (espírito) que se apossa do corpo dos bluesmans dando aos mesmos a inspiração para cantar tocar e compor.....

Naquela noite tudo estava no seu devido lugar, parecia que nada de extraordinário iria quebrar a rotina. Fazia frio, muito frio, em meados de junho, o vento assoviava na janela do quarto, mas o céu estava limpo e estrelado. As pessoas caminhavam nas ruas, de luvas, sobretudo, mantas, toucas, jaquetas de couro, chapéus de lã rumo aos bares e cafés. Lá do quinto andar eu espreitava pela janela do meu quarto o movimento, o vai e vem de carros e pessoas, a tradicional agitação que ocorria todos os sábados a noite. O relógio do celular marcava 22:30h. Esperava algum telefonema, de um amigo, de um conhecido para amenizar a solidão implacável. Pluguei minha guitarra á pequena caixa amplificada, mas logo desisti, já passava das dez horas, os vizinhos poderiam reclamar do barulho. Pensei em sair mesmo sozinho, entrar em um bar e tomar um vinho. Peguei minha carteira e constatei que não possuía nenhum tostão furado. A solução era escutar um som, ler um livro ou dormir.


Mas não havia nem sequer resquício de sono, então, das três alternativas escolhei a primeira. Liguei o som e coloquei tocar um mp3 do John Lee Hooker, arrastei a cadeira que se localizava em frente à raque do computador até a janela e fiquei como mero espectador, ouvindo Blues e assistindo o movimento da rua. O quarto estava mergulhado no breu, apenas uma pequena réstia de luz vinda de algum poste adentrava pela janela e deixava transparecer a silhueta dos móveis. Um estranho vazio se apossou de mim. O que eu era afinal? Qual o motivo pelo qual eu acordava todas as manhãs? Deveria haver algo maior, algo que justificasse a minha até então, insignificante existência. Uma crise existencial começou a perturbar a minha alma. Me veio a mente, de forma repentina uma máxima, o autor não me recordo mas era a seguinte: “Uns nascem para o suave deleite, outros, para os confins da noite”. E eu? Nasci para que?


Enquanto os solos sensuais e vigorosos da guitarra de Hooker ecoavam na minha mente, eu deixava minha alma se embalar no compasso daquele Blues. A cadência da música me despertava um sentimento selvagem, me transportava a um mundo sem fronteiras, sem regras, me excitava os sentidos e me provocava pensamentos libidinosos. A cada solo efusivo minha alma oscilava da melancolia ao êxtase em um curto espaço de tempo. Pensei: “O Blues, a melhor coisa que existe depois das mulheres, e não necessariamente nesta ordem”.


- Concordo com você? Respondeu uma voz de tenor, que com certeza eu já havia ouvido antes, em algum lugar. Tomei um tremendo susto, pulei da cadeira na qual estava sentado e rapidamente olhei para o interior do quarto. Ora quem poderia ser? Mr Mojo, lá estava ele com seu inconfundível chapéu, sentado em minha cama, fumando calmamente um cigarro.
- Procurando se encontrar garoto? Indagou.
- Não, tentando encontrar o sono. Respondi
- Mas como entrou aqui?
- Eu tenho meus truques, e não tente mentir para mim, você não quer dormir.
- Não, na verdade me sinto só, vazio, procurando algum sentido para continuar a levantar todas as manhãs.
- Ora, ora, todos estamos buscando algum sentido para a vida, apesar dela não ter nenhum. Afirmou Mojo.
- Deve haver algum, creio que sim.
- A vida só terá um sentido, depois que encontrarmos a nós mesmos.
- Muito filosófico da sua parte, mas não sou chegado a metafísica.
- Nem eu, meu filho, acredite, não se trata de metafísica, somos aquilo que sentirmos ser.
- E você, o que você é? Um fantasma, o demônio que levou a alma de Robert Johnson?! Perguntei irritado.
- Ora vejam só, está cada vez mais interessado na história do Blues!
- E como não poderia estar? Se uma das coisas que mais gosto de fazer é tocar e ouvir Blues?!
- E as outras coisas, quais são? Perguntou Mojo.
- Não sei. Sei que não posso viver do Blues, é apenas uma diversão.
- Mas me responda, afinal de contas quem é você? Um fantasma?
- Talvez, mas é mais certo afirmar que eu sou o reflexo fiel da sua alma. Respondeu Mojo.
- Essa é boa, eu não sou nem parecido com você. Olhe para a cor da sua pele, a sua altura.
- Eu não represento a sua forma física, eu represento a sua alma, a alma de todo o bluesman é negra.
- Eu não sou um bluesman, não tenho fama e nem toco tão bem assim.
- Quanto à fama não sei, mas se continuar estudando será um bom guitarrista de Blues. Tem tudo para que isso aconteça, sua alma é negra, sua alma é de um bluesman, acredite garoto.
- Como pode saber tanto sobre mim? Perguntei
- Eu faço parte de você, eu estou em você, e você está em mim.
- Como isso é possível?
- Você terá que compreender sozinho.
- Mas todas as histórias que me conta?
- A sua alma já sabia. Eu apenas fiz questão de lembrá-la.
- Que conversa mais sem nexo!
- Existem muitas coisas ocultas meu garoto, você é um dos poucos que possuí a dádiva de conhecê-las.
- De qualquer forma, não posso levar a vida como músico, ainda mais de Blues, devo estudar, trabalhar como a maioria das pessoas normais, não devo dar ouvidos a um fantasma, por favor, não tenho nada contra você, mas não me perturbe mais, você me deixa confuso!
- A dúvida é o diabo. Você sabe o que quer, mas não admite. Não vai precisar ganhar dinheiro com o Blues se é isso que está pensando, sua missão é cultivá-lo, transmiti-lo as gerações futuras para que ele não se perca. Somente dessa forma o sofrimento daqueles escravos nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos não terá sido em vão.
- Mas eu sou apenas um jovem pobre, que gosta de tocar Blues, não tenho poderes para levar adiante tal missão.
- Procure no fundo da sua alma, e encontrará a resposta, não tenha medo do desconhecido, porque um dia ele já foi revelado.
- Bem está na hora, vou embora.
- Espere! Nada ficou claro para mim.
- Mas em breve ficará. Até mais.

Acordei no domingo de manhã, deitado no chão, percebi que nem a roupa havia tirado. Pensei: “Devo ter pegado no sono, e sonhado, um sonho muito esquisito. Deixa pra lá, foi só um sonho, vou tomar meu café da manhã”.

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