Grande maioria das pessoas que ouvem falar em Blues, imediatamente associam o gênero musical á uma pequena parcela privilegiada de músicos eruditos e intelectuais. Talvez isso não seja totalmente um equívoco, apenas falta de um conhecimento mais aprofundado sobre o estilo. É claro que o jazz e o Free Jazz são subgêneros derivados do Blues que ao longo do tempo tornaram-se mais complexos e atingiram um público mais seleto, levamos em conta também o fato de que muitas técnicas utilizadas no Blues influenciaram algumas obras da música clássica contemporânea. No entanto, se nos aprofundarmos um pouco mais nas origens e na trajetória do Blues ao longo dos tempos podemos perceber o inverso. De acordo com os historiadores o Blues é uma música que está ligada a cultura afro-americana, surgiu da instrumentalização das Work-songs (Canções de trabalho) e dos Spirituals (canções religiosas) praticadas pelos negros escravos que trabalhavam e residiam no sul dos Estados Unidos da América no século XIX. Esses escravos até o que se sabe nunca entraram em contato com nenhuma espécie de música erudita, muito pelo contrário, pois os instrumentos musicais utilizados nos primórdios eram estritamente populares como: o banjo, o djamboé (de origem africana) e a gaita de boca, e só mais tarde tomaram contato com o violão (outro instrumento popular) devido a influência espanhola trazida do México.
A conclusão que pode ser tirarada de tudo isso é que o Blues surgiu em um ambiente interiorano, rural nenhum pouco erudito ou intelectualizado. Mesmo depois da grande legião de negros libertos que migraram para as grandes cidades da região do Delta do Mississipi (Celeiro do Blues) em busca de novas oportunidades de trabalho, o Blues ficou restrito as classes mais populares sendo difundido em prostíbulos, bares e casas de jogos, ambientes comuns dos guetos (espécie de cortiços ou favelas) das grandes cidades como Chicago por exemplo. Apesar de sofrer algumas transformações, como o uso da guitarra elétrica, o Blues jamais perdeu suas características rurais, tanto na sonoridade quanto na poesia. Nessa época de transformações o Blues passou a ser música popular entre os habitantes dos guetos (na sua maioria negros), as gravadoras passaram a produzir e vender discos de blues muito mais que qualquer outro Gênero musical da época.
Outro argumento que pode ser usado é o fato de que até onde a história nos leva, jamais houve relato de que algum bluesman tenha entrado em algum conservatório para estudar música. Temos que levar em conta sim, a criatividade a sensibilidade e o dom nato que muitos bluesmans possuíam. Sendo o Blues um gênero o qual faz muito uso do improviso, o bluesman tinha que possuir total domínio da escala a qual utilizaria, tanto na harmonia quanto na melodia. Outro fator que contribuiu para a genialidade que se percebe no Blues são as técnicas totalmente inigualáveis tanto de afinação dos instrumentos como na hora da execução do ritmo e do solo. Um exemplo que podemos citar é o Slide, onde o músico desliza um tubo de metal sobre as cordas produzindo um som sem precedentes.
O que coloca o Blues como um dos melhores gêneros musicais é realmente a simplicidade harmônica e melódica. Até hoje nenhum estilo musical tanto erudito como popular consegue transmitir tantas sensações e tanta beleza. Com uma base rítmica de no máximo três acordes (o que ocorre na maioria dos estilos clássicos do Blues), e utilizando uma escala chamada pentatônica ou penta-blues de origem oriental nos arranjos, o blues é teoricamente e também tecnicamente fácil de ser executado. A poesia em alguns casos chega a ser pieguas, mas nunca perde seu encanto.
É por isso que tomo a liberdade de afirmar, que o Blues é uma música popular, rural, dos guetos, das ruas, dos músicos itinerantes, dos andarilhos e não da elite erudita e intelectualizada, nem mesmos dos acadêmicos de música. Talvez hoje ele atinja um público seleto, por não atender as exigências comerciais do mercado fonográfico, que acostumou a fazer da música um produto descartável.


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